Guardiões da Humanidade - Colegiado Curitiba

É POSSÍVEL SER FELIZ EM UM MUNDO DE PROVAS E EXPIAÇÕES?

UM BREVE PENSAR

Por Sandra Pok
Terapeuta

A felicidade é um construto! Ouvi esta expressão em uma aula de Pós-graduação em Psicologia Positiva e a Ciência da Felicidade que cursei há alguns anos e, confesso, naquele momento, não alcancei sua força. Buscando no dicionário o significado da palavra construto, encontramos

Ideia ou teoria construída a partir de elementos conceituais ou subjetivos, não baseados em evidencias empíricas(1).

Bem, se levarmos em conta essa expressão como verdadeira, temos hoje em nosso planeta perto de 8 bilhões de conceitos ou definições sobre felicidade.

Ao pesquisar sobre o tema, encontramos conjecturas também das mais variadas nuances entre renomados filósofos da antiguidade, amantes da sabedoria e pensadores contemporâneos, o que corrobora com a relevância que a busca pela felicidade alcança na vida do ser humano como indivíduo e como pertencente à sociedade.

Em sua obra nomeada “Ética a Nicômaco”(2), o filósofo grego Aristóteles (384 a.C – 322 a.C.) afirma que a felicidade é a finalidade última do ser humano – o bem supremo. Assim sendo, todas as nossas ações e escolhas tem como propósito nos direcionar para uma vida feliz.

Porém, vivemos em um planeta onde ainda reina a imaturidade evolutiva da humanidade e cada um identifica o que lhe faz feliz sob as lentes de suas próprias experiências e expectativas. Nesse sentido, Aristóteles afirma:

(…) quanto ao que seja a felicidade, o vulgo não o concebe do mesmo modo que os sábios. Os primeiros pensam que seja alguma coisa simples e óbvia, como o prazer, a riqueza ou as honras, muito embora discordem entre si; e não raro o mesmo homem a identifica com diferentes coisas, com a saúde quando está doente, e com a riqueza quando é pobre.

E ao mesmo tempo que não podemos limitar a felicidade a fatores externos, visto que, a felicidade é uma atividade da alma (Aristóteles), não temos como negar que os inúmeros infortúnios que alcançam nossas vidas ou os sofrimentos daqueles que nos são caros influenciam demasiadamente nossa estrutura de bem-viver.

Mas afinal, podemos atingir a felicidade plena?

Allan Kardec, codificador das obras basilares da Doutrina Espírita, trouxe este questionamento no “Livro dos Espíritos”(3), na seguinte questão:

 920. O homem pode gozar na Terra uma felicidade completa?

— Não, pois a vida lhe foi dada como prova ou expiação, mas dele depende abrandar os seus males e ser tão feliz, quanto se pode ser na Terra.

Diante de tal afirmativa do Espírito Verdade, surge, então, outra pergunta: COMO SER FELIZ NA TERRA?

O filósofo Epícteto (55 d.C – 135 d.C.)(4) acende um pequeno candeeiro ao declarar que:

A vida feliz e a vida virtuosa são sinônimos. Felicidade e realização pessoal são consequências naturais de atitudes corretas.

E ainda destaca:

Sua felicidade depende de três coisas que estão todas sob seu poder: sua vontade, suas ideias a respeito do acontecimento em que está envolvido e o uso que você faz de suas ideias.

Diante disso, certo é que estamos longe de compreender a felicidade sublime, mas os passos em direção a uma vida bem-aventurada podem ser aprendidos.

Hoje, temos acesso à inúmeras fontes de saber e dispomos da oportunidade de estudar e descobrir as melhores respostas íntimas através da autorreflexão. E aqui quero destacar uma obra literária encantadora, um verdadeiro guia prático que amplia a possibilidade de atingirmos a felicidade como adultos conscienciais. Adquirido recentemente, já ganhou status de “livro de cabeceira”.

Refiro-me ao livro “Felicidade é um Problema Sério – Um guia para reparar a natureza humana(5), do autor Dennis Prager, primeira obra traduzida para a língua portuguesa pela Editora Casa dos Espíritos. Aproveito para parabenizar o idealizador deste projeto, o editor Leonardo Möller.

Destaco aqui o seguinte trecho:

[…] a maioria esmagadora dos seres humanos é inteligente o suficiente para ser mais feliz. O que lhes falta são: 1. A consciência de que o que os fará felizes requer bastante reflexão. 2. A autodisciplina para superar suas inclinações naturais a fazer o que é mais prazeroso no momento, em vez do que é mais indutor de felicidade. 3. A sabedoria para responder de modo consistente à pergunta: “Afinal, isto vai me fazer mais feliz ou mais infeliz?”.

Enfatizo que esta passagem é apenas um pequenino brilho diante da luminosidade solar que nos alcança cada capítulo. Recomendo a leitura com entusiasmo!

Ao trazer a tona um questionamento de tamanha relevância no momento em que humanidade está sendo sacudida pelos vendavais da mudança e oscila entre a insegurança pessoal e o tormento coletivo, tenho como intenção evidenciar que, mesmo diante deste cenário, existe a possibilidade de aclarar pensamentos e acalmar emoções. Ao nos tornarmos mais conscientes da nossa liberdade de escolha, assumimos a responsabilidade como agentes co-criadores de uma nova realidade e nos transformamos em partícipes na edificação de um mundo melhor.

Após todos os apontamentos apresentados, ainda nos resta responder a indagação que dá título a esta breve reflexão. Mas antes de me atrever a colocar qualquer conclusão, quero contar uma história.

Em uma aldeia havia um velho sábio que conhecia a resposta para todas as perguntas do mundo; um dia, um jovem malicioso resolveu testar a sapiência do ancião. Segurando em sua mão um pequeno pássaro, pensou: vou perguntar ao sábio se o pássaro está vivo ou morto; se responder morto, abro minha mão e o passarinho voa, mas se responder vivo, eu o esmago até a morte. E com este pensamento mal intencionado aproximou-se e fez a ardilosa pergunta. O velho homem pensou, pensou e respondeu: a resposta para sua pergunta está em suas mãos.

Portanto, penso que se cada um de nós perguntar ao seu sábio interior se é possível ser feliz neste mundo de provas e expiações, ouso acreditar que obteremos o seguinte retorno: A RESPOSTA PARA SUA PERGUNTA ESTÁ EM SUAS MÃOS!

Notas:

  1. https://www.dicio.com.br/construto/
  2. ARISTÓTELES, Ética a Nicômaco. Coleção a obra prima de cada autor. Ed. Martin Claret. LeLivros.site.https://www.faberj.edu.br/
  3. EPICTETO. A Arte de Viver – Manual Clássico da Virtude, Felicidade e Sabedoria. Uma nova interpretação de Sharon Lebell, tradução de Maria Luiza Newlands da Silveira. Rio de Janeiro. Ed. Sextante, 2018.
  4. KARDEC, Allan, Livro dos espíritos. Tradução de Salvador Gentile, revisão de Elias Barbosa. Araras, SP. Ed. IDE, 170ª edição, 2007.
  5. PRAGER, Dennis. Felicidade é um Problema Sério – Um guia para reparar a natureza humana. Tradução de Joana Carvalho e Leonardo Möller. Belo Horizonte/MG, Editora Casa dos Espíritos, 1ª edição, 2022.

Revisão: Gisele Scafuro
Edição: Karen Suckow e Rogerio M. Ovsiany
Imagem: Luciano Lozano/Getty Images